Opinião: Ready Player One, de Ernest Cline

Ready Player One
de Ernest Cline
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 416
Editor: Editorial Presença 
  






Resumo:
Em 2044 o mundo tornou-se um lugar triste, devastado por conflitos, escassez de recursos, fome, pobreza e doenças.

Wade Watts só se sente feliz na realidade virtual conhecida como OASIS, onde pode viver, jogar e apaixonar-se sem constrangimentos.

Quando o criador do OASIS morre, deixa a sua imensa fortuna e o controlo da realidade virtual a quem conseguir resolver os enigmas que aí escondeu. Os utilizadores têm apenas como pistas a cultura pop dos anos 1980.

Começa assim uma frenética e perigosa caça ao tesouro. Nos primeiros anos, milhares de jogadores tentam solucionar o enigma inicial sem sucesso. Até que Wade por acaso desvenda a primeira chave.

De um momento para o outro, vê-se numa corrida desesperada para vencer o prémio, uma corrida que rapidamente continua no mundo real e que põe em risco a sua vida.

Ready Player One vai ser adaptado ao cinema por Steven Spielberg.

Rating: 4,5/5

Comentário:  "Ready Player One" acabou por se revelar uma das surpresas do ano e um dos que mais prazer tive em ler ao longo de 2016!
Eu confesso. Este livro não me era desconhecido quando chegou a Portugal. Já tinha ouvido várias pessoas a elogiarem o quão bom ele era, tanto a nível nacional como internacional. Recordo que gostei especialmente da opinião da Linda Inês do canal Marilyn Kidman (Youtube), mas que apesar de tudo não me convenceram a imergir nesta experiência. Foi o lançamento da Editorial Presença que voltou a despertar-me a atenção a este livro, atendendo a que se aproxima uma adaptação cinematográfica a cargo do Steven Spielberg. Para além disso, uma leitura mais atenta da sinopse denunciou a existência de uma série de referências aos anos 80 e foi a ignição necessária para querer saltar de cabeça para este livro.
O enredo é bem explicado na sinopse: num mundo desfeito e onde a esperança já não é vigente, existe o OASIS, uma iniciativa que começou como jogo de computador para prestação coletiva e que acabou por se transfigurar numa real experiência imersiva. Para melhor compreenderem este cenário, arrisco-me a fazer uma pequena descrição para contextualizar.  OASIS acaba por ser uma porta aberta de oportunidades e de alternativas. Mais do que um substituto do mundo real, muitos vêem o contexto alterado e o mundo digital torna-se mais verdadeiro do que aquele onde o seu corpo existe. O OASIS permite ainda que algumas acções do mundo real passem a ser executadas através da plataforma: ir à escola online, trabalhar online, conhecer pessoas, sair à noite, casar online. Digamos que seria uma versão SIMS aumentada, onde cada um possuiu um avatar, o qual comanda em todas as funções que forem necessárias. De facto, a experiência desta plataforma é tão imersiva que numa escola os cacifos continuam a ser necessários para guardar material, o teletransporte paga-se como uma deslocação real, as salas de chatroom surgem como salas privadas para lazer onde se pode jogar videojogos, é possível contratar assistentes pessoais para apoiarem a gestão da vida pessoal online.
Isto só alguns exemplos mas que retratam o nível de pormenor e cuidado que Ernest Cline dedicou na construção deste mundo digital. Os pormenores, a estruturação do universo e o cuidado atribuído na sua construção tornam-se por vezes tão intensos que até o leitor se esquece que aquele não é de facto o mundo dito real, porque verdadeiro é certamente o outro.
Só por esse motivo, este livro foi capaz de captar a minha atenção e de me entusiasmar. Já pouco é novidade no mundo da literatura Young Adult, especialmente no que toca a universos distópicos, e é sempre um prazer imenso ser surpreendida e deparar-me com um vira-páginas, como não acontecia há muito.
A construção deste mundo vai ainda mais longe, levando-nos a imergir também, desculpem-me a redundância, na mentalidade daquela sociedade contemporânea. Deste modo, também o leitor dá por si a desvalorizar a realidade alternativa, o tal mundo desfeito do qual os seres humanos fogem. Não que o autor se tenha isentado de qualquer pormenor. Eles estão lá e ainda que não muito detalhados, são os suficientes para o enquadramento da narrativa. Mais do que isso, a transposição de um mundo para outro leva a que o leitor deixe para segundo plano o universo menos explorado, exactamente como qualquer ser humano neste livro.
Não posso deixar de referir a caça ao ovo, naturalmente, atendendo que esse é um dos pontos altos de toda a trama e que está extremamente bem constituída: tem acção, tem mistério e desafios, tem contratempos, tem aventuras que cheguem para um novo almanaque e adorei acompanhar par e passo estes momentos. Em jeito de sugestão tardia, ainda seria mais interessante se a narrativa criasse espaço para o leitor também pudesse equacionar e tentar adivinhar. No entanto, a personagem do James Halliday foi um mistério do início ao fim, propositadamente (para comprovar a dificuldade da caçada para os jogadores), pelo que o leitor é então remetido a mero espetador.
Uma das coisas que adorei foi o facto de não sermos efetivamente poupados a referências aos anos 80. Nascida na década seguinte, não conhecia todas e como tal fiquei interessada em procurar uma série delas. Naturalmente, e porque o tempo não se cinge na mudança de um calendário, vários dos ícones de 1980 acabaram por passar para a década seguinte e portanto foi interessante encontrar estes pontos de referência e saber exactamente sobre o quê se estava a falar e também o que estava em causa em cada momento quando essas indicações eram relevantes para o decorrer da narrativa.
Só estes elementos referidos já seriam suficientes para criar um enredo mais que preenchido. No entanto, e mais do que isso, este é um livro que coloca algumas questões de reflexão sobre a construção e vivência desta sociedade moderna futurista, sem no entanto ser moralista. De qualquer forma, são criadas condições para pensar no mundo real vs. mundo digital, no potencial das relações humanas e da confiança, na solidão inerente de viver somente atrás de um ecrã, na capacidade de ser altruista mesmo num mundo que pediria o contrário, no facto que não se existe realmente sem um suporte humano, sem o núcleo duro que nos faz reger emoções, sem alguém que nos potencie o melhor que temos mas que também chame a atenção quando precisamos de um puxão de orelhas, na força que uma crença em nós, a confiança ditada por outrem, tem para nos fazer sonhar e ir mais longe.
"Ready Player One" é um livro completo, onde não faltam referências aos videojogos, ao mundo dos anos 80, à amizade e à aventura, aliando-se a todos os aspectos já enumerados. Foi uma espectacular surpresa e deixou-me rendida. Aconselho vivamente a darem-lhe uma oportunidade.

Livro cedido pela Editorial Presença em troca de uma opinião honesta sobre a experiência de leitura. A editora não se responsabiliza nem detém qualquer influência no conteúdo apresentado na opinião.

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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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